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domingo, 11 de fevereiro de 2007

Fantasiado de ressaca moral

Decididamente, o Carnaval em Maceió acontece uma semana antes da data oficial que marca o calendário. Veja bem, eu disse acontece, não começa. Essa antecipação trata-se de um delírio, que foi crescendo, ganhando forma e apoio político, até se trtansformar no que é hoje. Um Carnaval de prévia.
Maceió é assim, tem personalidade própria, gosta de fazer as coisas do seu jeito.
Uma semana antes, cerca de 16 blocos desfilam, divididos entre a sexta-feira à noite e o sábado de manhã, numa disputa imaginário para ver quem é o mais animado. As marchinhas são as mesmas do tempo que o Carnaval no Brasil era rodar em círculo num salão de um clube social.
Depois dos desfile "prévios", o folião alagoano tem uma semana para optar sobre o que quer fazer: cair na folia de verdade, ou descansar em alguma beira de praia. Afinal, são mais de 200 km de lindas praias.
Todo ano é assim, alagoano que se preza, brinca o Carnaval fora de Maceió.
Porém, tem uma coisa que me incomoda todas as vezes: o que fazer com a fantasia, do desfile dos Filhinhos da Mamãe? (o bloco que eu saio sempre na prévias)
Esse é um problema de difícil solução.
Para começar, depois do desfile, ela passa dois dias encalhada na sala, ou no quarto, até definir qual destino dar. Se o lixo, ou a caixa.
As, vezes, dependendo, da inspiração, ela serve para ser usada durante a Lavagem do Beco do Rosário Estreito, tradicional baile de rua que acontece as sextas-feiras de Carnaval, na cidade de Penedo, na beira do São Francisco.
Quando a proposta é simples, como a fantasia de ladrão, de índio, soldado romano e por ai vai, beleza, rapidinho ela é guardada. Mas, nos anos que se investe na temática do folclore alagoano, o bicho pega.
O folclore alagoano é um dos mais rico em diversidade de folguedos e só perde no quesito luxo, para os enfeitados do maracatu pernambucano e os do bumba meu boi maranhense.
Este ano, nós apostamo no tema folguedo. Fedeu, né?
Para comemorar os 100 anos de Théo Brandão (museólogo e folclorista) e homenagear a morte do professor Ranilson França (folclorista) resolvemos fazer uma fantasia de guerreiro. Chapéu estilizado, com fitas de cetim coloridas, bordado com missangas e espelhos, acompanhado de saiote, com a pala também bordada com missangas e fitas de cetim coloridas penduradas. O resultado final ficou belo. À noite, aquele colorido acetinado realçou com a luz artifical das ruas, chamando a atenção por onde a gente passava. Éramos um bloco de seis pessoas.
Na verdade, o que me deixa mais angustiado com a fantasia estendida na minha sala, hoje, é que ela me faz lembrar a noite de bebedeira e irresponsabilidade que foi o desfile. Ela me lembra que eu estou de ressaca moral e profunda. Ela não me deixa esquecer que eu, advertidamente, estrapolei, por mais que eu tentasse me manter sóbrio e ligado. Ela, a fantasia, melhor do que ninguém me faz lembrar da culpa católica de entregar a carne à festa, mesmo quando não se é católico. Deixo-a ali, para ela me lembrar quem eu sou, na verdade, e o que o Carnaval quer dizer, finalmente.

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